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Quando o trabalho adoece: Uma perspectiva psicanalítica sobre o sofrimento no ambiente de trabalho.

  • Apr 6
  • 5 min read

Updated: Apr 8


Resumo


Nas últimas décadas, o adoecimento mental relacionado ao trabalho tornou-se uma preocupação crescente nas organizações e nos campos da psicologia e da saúde mental. Quadros de ansiedade, depressão, esgotamento emocional e burnout têm sido cada vez mais observados entre trabalhadores de diferentes áreas, evidenciando os impactos psíquicos das transformações contemporâneas no mundo do trabalho.


Este artigo propõe uma reflexão sobre o sofrimento psíquico no ambiente laboral a partir de uma perspectiva psicanalítica, articulando contribuições da teoria freudiana com a psicodinâmica do trabalho, especialmente as formulações de Christophe Dejours.


A análise busca compreender de que maneira as exigências produtivas contemporâneas, os modelos de gestão orientados por desempenho e a intensificação das relações de trabalho afetam a subjetividade dos indivíduos.


Ao discutir o papel do trabalho na constituição psíquica do sujeito e os efeitos das transformações organizacionais, o artigo aponta caminhos para a construção de ambientes laborais mais saudáveis, destacando a importância da escuta, do reconhecimento e de práticas institucionais voltadas à promoção da saúde mental.


Palavras-chave


Trabalho; sofrimento psíquico; saúde mental; psicanálise; psicodinâmica do trabalho; subjetividade.


Introdução


O trabalho ocupa um lugar central na vida humana. Para além de sua dimensão econômica, ele representa um importante espaço de construção de identidade, pertencimento e reconhecimento social. Ao longo da história, o trabalho foi compreendido não apenas como meio de subsistência, mas também como uma atividade estruturante da subjetividade, capaz de promover sentido e organização na vida psíquica dos indivíduos.


Entretanto, as transformações ocorridas no mundo do trabalho nas últimas décadas têm alterado significativamente a maneira como os sujeitos se relacionam com suas atividades profissionais. A intensificação das demandas produtivas, a cultura da alta performance, a instabilidade ocupacional e a crescente pressão por resultados têm contribuído para o aumento do sofrimento psíquico no ambiente organizacional.


Diversos estudos apontam que o adoecimento mental relacionado ao trabalho vem se ampliando de forma expressiva. Transtornos de ansiedade, depressão e síndrome de burnout figuram entre as principais causas de afastamento laboral em diferentes países. Nesse cenário, compreender os determinantes subjetivos do sofrimento no trabalho torna-se fundamental para o desenvolvimento de estratégias de cuidado e prevenção.


A psicanálise oferece instrumentos teóricos relevantes para analisar esse fenômeno. Desde as formulações freudianas sobre o mal-estar inerente à vida em sociedade até as contribuições da psicodinâmica do trabalho, torna-se possível compreender como as exigências sociais e organizacionais entram em tensão com a vida psíquica dos indivíduos.


O trabalho na constituição da subjetividade


O trabalho possui um papel estruturante na formação da subjetividade. Para Freud (1930), a inserção do sujeito na vida social ocorre, em grande medida, por meio das atividades produtivas. O trabalho permite que impulsos pulsionais sejam transformados em ações socialmente reconhecidas, processo que a psicanálise denomina sublimação. Dessa forma, ele pode constituir uma importante fonte de satisfação e realização pessoal.


Quando o trabalho possibilita autonomia, reconhecimento e expressão da criatividade, tende a favorecer experiências de prazer e fortalecimento da identidade. No entanto, quando as condições organizacionais impedem que o sujeito se reconheça em sua atividade, ou quando o trabalho passa a ser marcado exclusivamente por pressões e exigências excessivas, ele pode tornar-se uma fonte significativa de sofrimento psíquico.


Christophe Dejours, referência central na psicodinâmica do trabalho, destaca que a relação entre prazer e sofrimento é inerente à experiência laboral. Segundo o autor, o sofrimento no trabalho surge quando há um descompasso entre aquilo que é prescrito pelas organizações e aquilo que o trabalhador efetivamente vivencia no cotidiano de sua atividade.


Dejours também enfatiza a importância do reconhecimento no processo de construção da identidade profissional. O reconhecimento por parte de colegas, gestores e da própria organização funciona como um elemento fundamental para a sustentação psíquica do trabalhador. Quando esse reconhecimento não ocorre, o trabalho pode deixar de ser fonte de valorização subjetiva e transformar-se em um espaço de desgaste emocional.


As transformações do trabalho na contemporaneidade


As transformações econômicas e tecnológicas das últimas décadas alteraram profundamente as formas de organização do trabalho. A globalização dos mercados, a intensificação da competitividade e o avanço das tecnologias digitais produziram novas dinâmicas organizacionais, frequentemente marcadas por exigências de alta produtividade e adaptação constante.


Nesse contexto, muitos trabalhadores passaram a enfrentar jornadas extensas, metas cada vez mais elevadas e pressões contínuas por desempenho. A cultura organizacional contemporânea frequentemente valoriza a disponibilidade permanente, a rapidez na tomada de decisões e a capacidade de lidar com múltiplas demandas simultaneamente.


Essas mudanças impactam diretamente a subjetividade dos indivíduos. A constante necessidade de demonstrar competência, produtividade e eficiência pode gerar sentimentos de insuficiência, insegurança e medo de fracassar. A lógica da performance permanente transforma o ambiente de trabalho em um espaço de vigilância constante, no qual o sujeito se percebe continuamente avaliado.


Sofrimento psíquico e psicodinâmica do trabalho


A psicodinâmica do trabalho, desenvolvida por Christophe Dejours, constitui uma das principais abordagens teóricas para compreender o sofrimento relacionado ao trabalho. Diferentemente de perspectivas que tratam o adoecimento mental apenas como uma questão individual, essa abordagem enfatiza a relação entre organização do trabalho e experiência subjetiva.


Dejours argumenta que o sofrimento é uma dimensão inevitável do trabalho, uma vez que toda atividade envolve tensões, desafios e conflitos. No entanto, esse sofrimento pode ser transformado em experiência de crescimento quando existem condições para sua elaboração coletiva e simbólica.


Quando o ambiente organizacional impede a expressão do sofrimento ou desvaloriza as experiências subjetivas dos trabalhadores, o sofrimento tende a se intensificar. Muitas vezes, os indivíduos desenvolvem estratégias defensivas para lidar com essa situação, como a negação do sofrimento ou o investimento excessivo no trabalho.


O adoecimento mental no trabalho


O aumento dos casos de adoecimento mental relacionados ao trabalho tem sido amplamente discutido por pesquisadores e profissionais da saúde. Transtornos de ansiedade, depressão e síndrome de burnout figuram entre os diagnósticos mais frequentemente associados às condições laborais contemporâneas.


Do ponto de vista psicanalítico, o sintoma pode ser compreendido como uma forma de expressão de conflitos psíquicos que não encontram vias de simbolização. Quando o sujeito não consegue elaborar determinadas experiências ou tensões, o sofrimento pode manifestar-se por meio de sintomas emocionais e físicos.


No contexto do trabalho, o adoecimento mental muitas vezes revela um conflito entre as exigências organizacionais e os limites subjetivos do indivíduo. A dificuldade em estabelecer fronteiras entre vida profissional e vida pessoal, somada à pressão constante por desempenho, pode produzir um estado prolongado de esgotamento emocional.


A importância da escuta e do cuidado nas organizações


Diante do aumento do sofrimento psíquico relacionado ao trabalho, torna-se cada vez mais necessário pensar em estratégias que promovam ambientes organizacionais mais saudáveis. Nesse contexto, a escuta emerge como um elemento fundamental.


A psicanálise destaca a importância da escuta qualificada como ferramenta central no cuidado com o sofrimento humano. No ambiente organizacional, criar espaços de diálogo e reflexão pode permitir que trabalhadores expressem suas experiências e encontrem formas de elaborar os conflitos vivenciados.


Gestores e lideranças também desempenham um papel importante nesse processo. Uma liderança sensível às questões humanas do trabalho pode contribuir significativamente para a construção de ambientes mais acolhedores e respeitosos.


Considerações finais


O crescente adoecimento mental relacionado ao trabalho representa um importante desafio para organizações e profissionais da saúde. Compreender esse fenômeno exige considerar não apenas fatores individuais, mas também as transformações estruturais que têm marcado o mundo do trabalho contemporâneo.


A psicanálise e a psicodinâmica do trabalho oferecem contribuições fundamentais para essa compreensão, ao destacar a importância da subjetividade e da dimensão simbólica das experiências laborais.


Promover espaços de escuta, fortalecer práticas de reconhecimento e desenvolver políticas institucionais voltadas ao cuidado com a saúde mental são estratégias essenciais para enfrentar esse cenário. Mais do que nunca, torna-se necessário repensar as formas de organização do trabalho, considerando que a preservação da saúde psíquica dos trabalhadores é condição fundamental para o funcionamento saudável das organizações.


Referências


DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.


DEJOURS, Christophe. Subjetividade, trabalho e ação. Produção, São Paulo, v. 4, n. 3, 1994.


FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


MENDES, Ana Magnólia (org.). Psicodinâmica do trabalho: teoria, método e pesquisas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.

 
 
 

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